quinta-feira, 18 de setembro de 2014
X ENCONTRO NACIONAL DA FamVin em Portugal
Será no próximo dia 28 de setembro que, a Família Vicentina (FamVin) - os vários ramos que se inspiram no carisma de São Vicente de Paulo -, realizará o seu Encontro de reflexão, convívio e celebração, em Fátima. São sete (como os dons do Espírito Santo) os "Ramos" desta árvore que tem as suas raízes em Cristo e Vicente de Paulo como seu tronco, por onde passa a seiva onde se alimentam e os fazem dar frutos. Mas o encontro está aberto a todas as pessoas que desejem estar e celebrar connosco.
Fica aqui o programa do dia, para todos os interessados:
10,00h - Acolhimento (Centro Pastoral Paulo VI)
10,30h - Apresentação
10,45h - Reflexão sobre "Alegria do Evangelho: Evangelização e Caridade" (Prof. Dr. João César das Neves)
12,30h - Eucaristia (Basílica da Santíssima Trindade)
13,30h - Almoço (individual)
15,30h - Celebração Mariana "Alegria do Evangelho com Maria" (Centro Pastoral Paulo VI)
Vem celebrar connosco...
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
FÉRIAS CRIATIVAS E CARITATIVAS
1. Descanso interrompido, numa brevíssima pausa de Jesus! E Jesus bem podia reivindicar o seu direito a férias e ao sossego! Mas, na verdade, o seu retiro não é uma fuga, nem uma escapadela de fim-de-semana! Jesus descansa, não para deixar de ouvir as suas gentes, mas para escutar, em profundidade, os gritos e clamores de uma multidão faminta, que O procura. Jesus descansa, não para se dar ao luxo de não fazer nada, mas para reforçar a sua capacidade de tudo fazer pelos outros. Esta é a primeira lição, para estas férias: fazer do descanso, não uma fruição comodista, individualista, egoísta, que ignora tudo e todos, mas um tempo de reforço das nossas energias e capacidades, para uma maior atenção a Deus e aos outros!
2. Depois, ao cair da tarde, a coisa complica-se, com tanta gente e tão pouco para comer! E é ver, de um lado, Jesus, que se compadece, acolhe, cura e manda dar e dividir. E, de outro, os discípulos, insensíveis, prontos a descartar-se e a mandar o povo embora, às compras, de modo que cada um trate da sua vidinha! O segredo do milagre é transformar a lógica do comprar e pagar, na lógica do partir e do dar. O milagre não está na multiplicação do pão, mas na sua divisão! Esta é a segunda lição para as férias: não desfrutarmos sozinhos os dons da criação, da água, do vinho, do pão, do sol, do mar, da restauração. Multipliquemos a nossa alegria, dividindo o que temos, mesmo se nos parece uma gota de água, num mar de misérias! E não percamos as sobras, que afinal são para os outros falhas e migalhas!
3. Inspiro-me em São Paulo (cf. 2ª leitura), para uma terceira recomendação de férias: “nem o trabalho nem o descanso, nem o quarto nem a cozinha, nem a noite nem o dia, nem o fundo do mar, nem a altura da montanha, nem qualquer outra criatura, vos possa separar desta mesa da Eucaristia”. Aqui comereis, sem despesa e sem dinheiro, o que é bom! Só aqui encontrareis o Pão, que não enche estômagos fartos, mas sacia almas, que ainda têm verdadeira fome de Deus!
p. Gonçalo (Senhora da Hora)
sexta-feira, 11 de julho de 2014
FOI SENTAR-SE À BEIRA-MAR
Jesus saiu de casa e foi sentar-se à beira-mar! (Mt.13,1)
O Semeador, que saíra a semear, parece agora pouco preocupado com o resultado da colheita! Semeou, na larga confiança da força vital da semente! E agora, livre de qualquer ânsia, por pesar os resultados, sai de novo. Desta feita, - diz o texto, a abrir o Discurso em parábolas - “Jesus saiu de casa e foi sentar-se à beira mar” (Mt.13,1). Deixemos para Jesus, a explicação que Ele próprio oferece da parábola, e detenhamo-nos apenas neste belo pormenor da cena, com que São Mateus a enquadra.
Jesus saiu de casa e foi sentar-se à beira-mar!
Jesus parece sem programa, para cumprir! Sem qualquer compromisso particular. Senta-se a contemplar o panorama do lago, que lhe era familiar! Num momento de distensão, nas margens do lago, Jesus simplesmente louvará o Pai, por aquela maravilha, obra das suas mãos. Ou simplesmente deixará que os seus olhos se encham com a beleza que o rodeia, permanecendo ali em silêncio! Surpreendentemente a sua pregação, improvisada à beira-mar, parte de imagens da vida agrícola, talvez captadas por ele, na manhã daquele dia, antes ainda que a sua solidão contemplativa, fosse interrompida pela multidão que dele se aproxima!
Jesus saiu de casa!
E nós também sentimos o apelo da partida, da mudança, de sair uns dias, para fora do lugar do costume! Afinal, porque é que as pessoas, se deslocam em vez de ficarem quietas? Esta pergunta reconduz-nos ao centro do mistério do nosso próprio ser. De facto, as nossas viagens nunca são apenas exteriores. Não é simplesmente, na cartografia do mundo, que o homem viaja. Nesta inquietação, que se apodera de nós, sobretudo nos meses de verão, move-se afinal esse desejo tão humano, de mais, de ir mais longe!
Deslocar-se implica, de facto, uma mudança de posição, uma maturação do olhar, uma abertura ao novo, uma adaptação a realidades e linguagens, um confronto, um diálogo tenso ou deslumbrado, que deixa necessariamente na alma impressões muito fundas! A experiência da viagem é a experiência da fronteira e do aberto, de que cada pessoa precisa para ser ela própria. É a nossa consciência que deambula, descobre cada detalhe do mundo e olha tudo de novo, como da primeira vez. A viagem é uma espécie de propulsor deste olhar novo! Na verdade, mais do que geógrafos ou viajantes, somos peregrinos. E, para nós, esta peregrinação não tem propriamente um fim. Tem uma extraordinária finalidade: a do encontro com Cristo, que até pode ser junto ao mar!
Foi sentar-se à beira-mar!
Milhões de pessoas repetem, no verão, este gesto de Jesus! Eu acredito que tal como os outros gestos de Jesus, nesse também há um significado libertador. Há uma liberdade, que o vento fresco do mar arrasta para o nosso coração! Somos habitados por uma fome de vastidão, de silêncio e de beleza que a contemplação do oceano consola. Porque, como escrevia Fernando Pessoa, “somos da altura que vemos e não simplesmente da nossa altura”.
Querido irmão, querida irmã: Saindo de casa, sentado (a) à beira mar, ou mesmo na soleira da porta, deixa que Deus venha ao teu encontro e te contemple! Deixa que em silêncio, Ele reze o que tu és! Deixa-te tocar, nem que seja um frágil minuto, diante da Sua imensidão! E a semente do Reino crescerá no teu coração!
Reflexão inspirada em textos de JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA, Um Deus que dança, Secretariado Nacional do Apostolado da Oração, Braga 2011, 108; IDEM, O tesouro escondido, Ed. Paulinas, Prior Velho 2011, 107-108.
sábado, 21 de junho de 2014
Vencer com (o) Jesus, na Eucaristia
HOMILIA NA SOLENIDADE DO CORPUS CHRISTI 2014
Cristiano Ronaldo fez sua, no Facebook, uma bela expressão que o Papa Francisco usou na sua mensagem ao Mundial de Futebol 2014: “Ninguém vence sozinho, nem no campo, nem na vida”! Quero destacar quatro [ou três] características do futebol que muito desejaria aplicar à celebração e à vivência da nossa Eucaristia:
1ª: O futebol é uma grande festa! O desafio que ele nos traz hoje é o de viver também a Missa, como uma grande festa! Quem me dera ver, nas nossas assembleias dominicais, tamanha alegria do encontro, a mesma diversidade das cores, o entusiasmo dos participantes, as aclamações dos fiéis, a paixão por Jesus, sempre que nos reunimos, à volta de uma mesa, para celebrar a grande vitória da sua ressurreição! É para Ele que erguemos sempre a taça, o cálice da nova aliança. Mas Ele partilha sempre connosco todos os frutos do seu sacrifício, ele partilha connosco a alegria da sua vitória! Daqui, nunca saímos derrotados!
2ª O futebol é uma prática, que exige treino! O desafio que nos faz é o de exercitar a prática dominical da Eucaristia, para melhorar a nossa vida. Quem só pratica desporto, quando lhe apetece, quando lhe dá jeito, ou quando pode ganhar alguma coisa, não chega a parte nenhuma, não atinge os resultados esperados, nunca passará de um atleta de baixa competição. Também a nossa vida cristã, alimentada na Eucaristia, exige uma prática constante: quem não pratica, quem não treina, quem não participa na eucaristia, não passará de um simpatizante, incapaz de melhorar os resultados. Um católico não praticante é uma coisa tão estranha como um futebolista que não joga. Havia antigamente um provérbio, que dizia: “não há sábado sem sol, nem domingo sem missa, nem segunda sem preguiça”. Hoje o provérbio converteu-se neste: “não há sábado sem sol, nem domingo sem preguiça e sem futebol”. Olhai: temos todos juntos, de escutar, Jesus, o nosso verdadeiro treinador, para dar a volta a este vergonhoso resultado!
3ª O futebol exige espírito de equipa. Por isso, o desafio que nos traz é o de aprendermos a viver em comunidade! Sabeis muito bem: ninguém joga sozinho, ninguém ganha sozinho, ninguém perde sozinho, ninguém celebra uma vitória sozinho, nem no campo, nem na vida, nem na fé. Ninguém é cristão sozinho. O cristão faz parte de uma equipa, de uma família, de uma comunidade, de um corpo! Ninguém celebra a fé sozinho. Ninguém canta uma vitória sozinho. Só, reunidos, em comunidade, é que podemos sofrer juntos as derrotas, celebrar juntos as vitórias; Quando somos “individualistas”, vivendo a fé, como algo só nosso, é a própria a Igreja, é toda a família cristã, que fica prejudicada, que não cresce nem aparece nem comparece, ao desafio principal.
4. O futebol implica ir a jogo, com vontade de vencer. Na Eucaristia, encontramos a força, que não nos deixa desistir. Sabeis bem que uma final de um campeonato de futebol não suporta empates! É preciso ir a jogo, para decidir o jogo. Na Eucaristia, não podemos ficar “no banco”, como suplentes, ou em casa, como espetadores! Todos temos de ir a jogo, todos devemos participar: escutando, cantando, rezando, oferecendo a nossa vida! Quem participa na Eucaristia, põe-se em jogo com os outros e com Deus! Quem falta à Eucaristia, empata, não ata nem desata, na sua vida espiritual! Não vos contenteis com um «empate», mas dai o melhor de vós mesmos! Ide em frente, procurando sempre a vitória!
Todos os domingos, o treinador, que é Jesus Cristo, conta connosco, para entrar neste jogo e celebrar a vitória do seu amor, por nós. Não fiqueis em casa. Ide a jogo, participai na Eucaristia. E sabereis o que é isto de nunca perder um jogo e de viver em santa alegria!
P. Gonçalo (Pároco da Senhora da Hora - Porto)
quinta-feira, 12 de junho de 2014
Campeonato mundial - Mensagem do Papa Francisco
MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO POR OCASIÃO DA ABERTURA DA COPA DO MUNDO DE 2014
Queridos amigos,
É com grande alegria que me dirijo a vocês todos, amantes do futebol, por ocasião da abertura da Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Quero enviar uma saudação calorosa aos organizadores e participantes; a cada atleta e torcedor, bem como a todos os espectadores que, no estádio ou pela televisão, rádio e internet, acompanham este evento que supera as fronteiras de língua, cultura e nação.
A minha esperança é que, além de festa do esporte, esta Copa do Mundo possa tornar-se a festa da solidariedade entre os povos. Isso supõe, porém, que as competições futebolísticas sejam consideradas por aquilo que no fundo são: um jogo e ao mesmo tempo uma ocasião de diálogo, de compreensão, de enriquecimento humano recíproco. O esporte não é somente uma forma de entretenimento, mas também - e eu diria sobretudo - um instrumento para comunicar valores que promovem o bem da pessoa humana e ajudam na construção de uma sociedade mais pacífica e fraterna. Pensemos na lealdade, na perseverança, na amizade, na partilha, na solidariedade. De fato, são muitos os valores e atitudes fomentados pelo futebol que se revelam importantes não só no campo, mas em todos os aspectos da existência, concretamente na construção da paz. O esporte é escola da paz, ensina-nos a construir a paz.
Nesse sentido, queria sublinhar três lições da prática esportiva, três atitudes essenciais para a causa da paz: a necessidade de “treinar”, o “fair play” e a honra entre os competidores. Em primeiro lugar, o esporte ensina-nos que, para vencer, é preciso treinar. Podemos ver, nesta prática esportiva, uma metáfora da nossa vida. Na vida, é preciso lutar, “treinar”, esforçar-se para obter resultados importantes. O espírito esportivo torna-se, assim, uma imagem dos sacrifícios necessários para crescer nas virtudes que constroem o carácter de uma pessoa. Se, para uma pessoa melhorar, é preciso um “treino” grande e continuado, quanto mais esforço deverá ser investido para alcançar o encontro e a paz entre os indivíduos e entre os povos “melhorados”! É preciso “treinar” tanto…
O futebol pode e deve ser uma escola para a construção de uma “cultura do encontro”, que permita a paz e a harmonia entre os povos. E aqui vem em nossa ajuda uma segunda lição da prática esportiva: aprendamos o que o “fair play” do futebol tem a nos ensinar. Para jogar em equipe é necessário pensar, em primeiro lugar, no bem do grupo, não em si mesmo. Para vencer, é preciso superar o individualismo, o egoísmo, todas as formas de racismo, de intolerância e de instrumentalização da pessoa humana. Não é só no futebol que ser “fominha” constitui um obstáculo para o bom resultado do time; pois, quando somos “fominhas” na vida, ignorando as pessoas que nos rodeiam, toda a sociedade fica prejudicada.
A última lição do esporte proveitosa para a paz é a honra devida entre os competidores. O segredo da vitória, no campo, mas também na vida, está em saber respeitar o companheiro do meu time, mas também o meu adversário. Ninguém vence sozinho, nem no campo, nem na vida! Que ninguém se isole e se sinta excluído! Atenção! Não à segregação, não ao racismo! E, se é verdade que, ao término deste Mundial, somente uma seleção nacional poderá levantar a taça como vencedora, aprendendo as lições que o esporte nos ensina, todos vão sair vencedores, fortalecendo os laços que nos unem.
Queridos amigos, agradeço a oportunidade que me foi dada de lhes dirigir estas palavras neste momento – de modo particular à Excelentíssima Presidenta do Brasil, Senhora Dilma Rousseff, a quem saúdo – e prometo minhas orações para que não faltem as bênçãos celestiais sobre todos. Possa esta Copa do Mundo transcorrer com toda a serenidade e tranquilidade, sempre no respeito mútuo, na solidariedade e na fraternidade entre homens e mulheres que se reconhecem membros de uma única família. Muito obrigado!
quinta-feira, 5 de junho de 2014
Solenidade de Pentecostes
Domingo, 19 de maio de 2013
Amados irmãos e irmãs,
Neste dia, contemplamos e revivemos na liturgia a efusão do Espírito Santo realizada por Cristo ressuscitado sobre a sua Igreja; um evento de graça que encheu o Cenáculo de Jerusalém para se estender ao mundo inteiro.
Então que aconteceu naquele dia tão distante de nós e, ao mesmo tempo, tão perto que alcança o íntimo do nosso coração? São Lucas dá-nos a resposta na passagem dos Atos dos Apóstolos que ouvimos (2, 1-11). O evangelista leva-nos a Jerusalém, ao andar superior da casa onde se reuniram os Apóstolos. A primeira coisa que chama a nossa atenção é o rombo improviso que vem do céu, “comparável ao de forte rajada de vento”, e enche a casa; depois, as “línguas à maneira de fogo” que se iam dividindo e pousavam sobre cada um dos Apóstolos. Rombo e línguas de fogo são sinais claros e concretos, que tocam os Apóstolos não só externamente mas também no seu íntimo: na mente e no coração. Em consequência, “todos ficaram cheios do Espírito Santo”, que esparge seu dinamismo irresistível com efeitos surpreendentes: “começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes inspirava que se exprimissem”. Abre-se então diante de nós um cenário totalmente inesperado: acorre uma grande multidão e fica muito admirada, porque cada qual ouve os Apóstolos a falarem na própria língua. É uma coisa nova, experimentada por todos e que nunca tinha sucedido antes: “Ouvimo-los falar nas nossas línguas”. E de que falam? “Das grandes obras de Deus”.
À luz deste texto dos Atos, quereria refletir sobre três palavras relacionadas com a ação do Espírito: novidade, harmonia e missão.
1. A novidade causa sempre um pouco de medo, porque nos sentimos mais seguros se temos tudo sob controle, se somos nós a construir, programar, projetar a nossa vida de acordo com os nossos esquemas, as nossas seguranças, os nossos gostos. E isto verifica-se também quando se trata de Deus. Muitas vezes seguimo-Lo e acolhemo-Lo, mas até um certo ponto; sentimos dificuldade em abandonar-nos a Ele com plena confiança, deixando que o Espírito Santo seja a alma, o guia da nossa vida, em todas as decisões; temos medo que Deus nos faça seguir novas estradas, faça sair do nosso horizonte frequentemente limitado, fechado, egoísta, para nos abrir aos seus horizontes. Mas, em toda a história da salvação, quando Deus Se revela traz novidade – Deus traz sempre novidade -, transforma e pede para confiar totalmente n’Ele: Noé construiu uma arca, no meio da zombaria dos demais, e salva-se; Abraão deixa a sua terra, tendo na mão apenas uma promessa; Moisés enfrenta o poder do Faraó e guia o povo para a liberdade; os Apóstolos, antes temerosos e trancados no Cenáculo, saem corajosamente para anunciar o Evangelho. Não se trata de seguir a novidade pela novidade, a busca de coisas novas para se vencer o tédio, como sucede muitas vezes no nosso tempo. A novidade que Deus traz à nossa vida é verdadeiramente o que nos realiza, o que nos dá a verdadeira alegria, a verdadeira serenidade, porque Deus nos ama e quer apenas o nosso bem. Perguntemo-nos hoje a nós mesmos: Permanecemos abertos às “surpresas de Deus”? Ou fechamo-nos, com medo, à novidade do Espírito Santo? Mostramo-nos corajosos para seguir as novas estradas que a novidade de Deus nos oferece, ou pomo-nos à defesa fechando-nos em estruturas caducas que perderam a capacidade de acolhimento? Far-nos-á bem pormo-nos estas perguntas durante todo o dia.
2. Segundo pensamento: à primeira vista o Espírito Santo parece criar desordem na Igreja, porque traz a diversidade dos carismas, dos dons. Mas não; sob a sua ação, tudo isso é uma grande riqueza, porque o Espírito Santo é o Espírito de unidade, que não significa uniformidade, mas a recondução do todo à harmonia. Quem faz a harmonia na Igreja é o Espírito Santo. Um dos Padres da Igreja usa uma expressão de que gosto muito: o Espírito Santo «ipse harmonia est – Ele próprio é a harmonia». Só Ele pode suscitar a diversidade, a pluralidade, a multiplicidade e, ao mesmo tempo, realizar a unidade. Também aqui, quando somos nós a querer fazer a diversidade fechando-nos nos nossos particularismos, nos nossos exclusivismos, trazemos a divisão; e quando somos nós a querer fazer a unidade segundo os nossos desígnios humanos, acabamos por trazer a uniformidade, a homogeneização. Se, pelo contrário, nos deixamos guiar pelo Espírito, a riqueza, a variedade, a diversidade nunca dão origem ao conflito, porque Ele nos impele a viver a variedade na comunhão da Igreja. O caminhar juntos na Igreja, guiados pelos Pastores – que para isso têm um carisma e ministério especial – é sinal da ação do Espírito Santo; uma característica fundamental para cada cristão, cada comunidade, cada movimento é a eclesialidade. É a Igreja que me traz Cristo e me leva a Cristo; os caminhos paralelos são muito perigosos! Quando alguém se aventura ultrapassando (proagon) a doutrina e a Comunidade eclesial – diz o apóstolo João na sua Segunda Carta e deixa de permanecer nelas, não está unido ao Deus de Jesus Cristo (cf. 2 Jo 9). Por isso perguntemo-nos: Estou aberto à harmonia do Espírito Santo, superando todo o exclusivismo? Deixo-me guiar por Ele, vivendo na Igreja e com a Igreja?
3. O último ponto. Diziam os teólogos antigos: a alma é uma espécie de barca à vela; o Espírito Santo é o vento que sopra na vela, impelindo-a para a frente; os impulsos e incentivos do vento são os dons do Espírito. Sem o seu incentivo, sem a sua graça, não vamos para a frente. O Espírito Santo faz-nos entrar no mistério do Deus vivo e salva-nos do perigo de uma Igreja gnóstica e de uma Igreja narcisista, fechada no seu recinto; impele-nos a abrir as portas e sair para anunciar e testemunhar a vida boa do Evangelho, para comunicar a alegria da fé, do encontro com Cristo. O Espírito Santo é a alma da missão. O sucedido em Jerusalém, há quase dois mil anos, não é um fato distante de nós, mas um fato que nos alcança e se torna experiência viva em cada um de nós. O Pentecostes do Cenáculo de Jerusalém é o início, um início que se prolonga. O Espírito Santo é o dom por excelência de Cristo ressuscitado aos seus Apóstolos, mas Ele quer que chegue a todos. Como ouvimos no Evangelho, Jesus diz: “Eu apelarei ao Pai e Ele vos dará outro Paráclito para que esteja sempre convosco” (Jo 14, 16). É o Espírito Paráclito, o “Consolador”, que dá a coragem de levar o Evangelho pelas estradas do mundo! O Espírito Santo ergue o nosso olhar para o horizonte e impele-nos para as periferias da existência a fim de anunciar a vida de Jesus Cristo. Perguntemo-nos, se tendemos a fechar-nos em nós mesmos, no nosso grupo, ou se deixamos que o Espírito Santo nos abra à missão. Recordemos hoje estas três palavras: novidade, harmonia, missão.
A liturgia de hoje é uma grande súplica, que a Igreja com Jesus eleva ao Pai, para que renove a efusão do Espírito Santo. Cada um de nós, cada grupo, cada movimento, na harmonia da Igreja, se dirija ao Pai pedindo este dom. Também hoje, como no dia do seu nascimento, a Igreja invoca juntamente com Maria: “Veni Sancte Spiritus… – Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor”! Amém.
Papa Francisco
quarta-feira, 28 de maio de 2014
Maria, é um grande SIM
“Faça-se em mim segundo a Tua Palavra” (Lc 1, 38)
Para que Deus pusesse em marcha o seu grande projecto de salvação, era necessário um grande “sim”. Um “sim” divino e um “sim” humano. O “sim” divino é dado por Jesus, o Filho que aceita voluntariamente assumir a condição humana e dar-nos, pelo caminho da vida e do sofrimento, a vida imortal. O “sim” humano, em toda a consciência e liberdade, é dado por Maria, a jovem de Nazaré, que se abandona nas mãos de Deus, a fim de que nela se opere o mistério da salvação.
Deus propõe e Maria escuta e, pela fé, acolhe a mensagem divina. Como possa ser isso, em nada a preocupa. Ela, apenas, em sua humildade, diz não “conhecer homem” e Deus responde que, o que nela se vai operar, é fruto do Espírito Santo. “Faça-se em mim segundo a Tua Palavra” é adesão plena ao projecto de Deus. Maria acredita e a vontade de Deus realiza-se. O que aos olhos dos homens é impossível, a Deus é possível. E todo este mistério, começado na humilde casa de Nazaré e atingindo o cimo do Calvário, nos braços da Cruz, precisou do “sim” de Jesus e de Maria. “Em tuas mãos, ó Maria, está o preço da nossa salvação – como disse São Bernardo – a tua resposta pode renovar-nos e restituir-nos à vida”.
Tu que lês estas linhas, Jesus respondeu ao plano do Pai com um “sim” categórico, responsável e livre. Maria deu o seu “sim” em toda a liberdade e consciência. Todos somos chamados à actualização deste “sim” em nossa vida concreta e na história do nosso tempo. O “sim” baptismal é a nossa consagração ao plano de Deus. Qualquer que seja o “sim” que Deus te peça, só por Ele e pela sua Igreja será aceite em toda a tua plena liberdade e consciência, de modo que assumas toda a sua responsabilidade. E quando damos o nosso “sim”, diante de Deus e diante dos outros, a paz e a alegria enchem o nosso coração porque o Espírito Santo renova continuamente tudo em nós.
Depois de ter dado o “sim” Maria deixou a Deus o curso da sua vida e a história do seu povo. Vicente de Paulo, depois da verdadeira tomada de consciência do “sim” sacerdotal, deixou que Deus realizasse, por seu intermédio, a obra maravilhosa da Caridade e da Evangelização do “pobre povo do campo”. Enquanto correu atrás de honras e dos benfícios não passou de uma caricatura de um pobre sacerdote; porém, só quando se deu todo aos outros – aos mais pobres dos pobres – aparece a grandeza do padre Vicente à medida da grandeza do seu “sim” e da obra que Deus por ele realizou!
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