quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

FORTALECEI OS VOSSOS CORAÇÕES

SÍNTESE DA MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA A QUARESMA DE 2015 Fortalecei os vossos corações (Tg 5, 8) Partindo de um versículo da carta de Tiago, o Papa Francisco, exorta-nos ao fortalecimento do coração e recorda-nos, uma vez mais, neste «tempo favorável» (cf. 2Cor 6, 2) da Quaresma, a “obrigação” de enfrentar a atitude egoísta da «indiferença». Isto é, “encontrando-me relativamente bem e confortável, esqueço-me dos que não estão bem! Hoje, esta atitude egoísta de indiferença atingiu uma dimensão mundial tal que podemos falar de uma globalização da indiferença”. Ora “a Deus não Lhe é indiferente o mundo, mas ama-o até ao ponto de entregar o seu Filho [...] E a Igreja é como a mão que mantém aberta esta porta, por meio da proclamação da Palavra, da celebração dos Sacramentos, do testemunho da fé que se torna eficaz pelo amor (cf. Gl 5, 6). […] Por isso, o povo de Deus tem necessidade de renovação, para não cair na indiferença nem se fechar em si mesmo”. Tendo em vista esta renovação, o Santo Padre, propõem-nos três textos para meditarmos: 1. «Se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros» (1 Cor 12, 26): A Igreja. Diz-nos o Papa: “A Quaresma é um tempo propício para nos deixarmos servir por Cristo e, deste modo, tornarmo-nos como Ele. Verifica-se isto quando ouvimos a Palavra de Deus e recebemos os sacramentos, nomeadamente a Eucaristia. Nesta, tornamo-nos naquilo que recebemos: o corpo de Cristo. Neste corpo, não encontra lugar a tal indiferença”. E na Igreja, enquanto «comunhão dos santos», “aquilo que cada um possui, não o reserva só para si, mas tudo é para todos. E, dado que estamos interligados em Deus, podemos fazer algo mesmo pelos que estão longe, por aqueles que não poderíamos jamais, com as nossas simples forças, alcançar: rezamos com eles e por eles a Deus, para que todos nos abramos à sua obra de salvação”. 2. «Onde está o teu irmão?» (Gn 4, 9): As paróquias e as comunidades O Santo Padre conclui este ponto da mensagem com um desejo: “que os lugares onde a Igreja se manifesta, particularmente as nossas paróquias e as nossas comunidades, se tornem ilhas de misericórdia no meio do mar da indiferença!” Por isso, propõem-nos as seguintes perguntas: nas paróquias, comunidades cristãs, movimentos e grupos, “consegue-se porventura experimentar que fazemos parte de um único corpo? Um corpo que, simultaneamente, recebe e partilha aquilo que Deus nos quer dar? Um corpo que conhece e cuida dos seus membros mais frágeis, pobres e pequeninos? Ou refugiamo-nos num amor universal pronto a comprometer-se lá longe no mundo, mas que esquece o Lázaro sentado à sua porta fechada (cf. Lc 16, 19-31)?” Ora, para receber e fazer frutificar plenamente aquilo que Deus nos dá, deve-se ultrapassar as fronteiras da Igreja visível em duas direcções: • Em primeiro lugar, unindo-nos à Igreja do Céu na oração. • Em segundo lugar, atravessando o limiar que a põe em relação com a sociedade circundante, com os pobres e com os incrédulos. E conclui: “A Igreja é, por sua natureza, missionária, não fechada em si mesma, mas enviada a todos os homens. Esta missão passa pelo testemunho de Jesus que quer conduzir todos a Deus, a denúncia do mal e ver no próximo, o irmão e a irmã por quem Cristo morreu e ressuscitou. Tudo aquilo que recebemos, recebemo-lo também para eles. E, vice-versa, tudo o que estes irmãos possuem é um dom para a Igreja e para a humanidade inteira”. 3. «Fortalecei os vossos corações» (Tg 5, 8): Cada um dos fiéis Recorda-nos o Papa que, também como indivíduos, temos a tentação da indiferença. Estamos saturados de notícias e imagens impressionantes que nos relatam o sofrimento humano, sentindo ao mesmo tempo toda a nossa incapacidade de intervir. Que fazer para não nos deixarmos absorver por esta espiral de terror e impotência? • Em primeiro lugar, podemos rezar na comunhão da Igreja terrena e celeste. Não subestimemos a força da oração de muitos! A iniciativa 24 horas para o Senhor, que espero se celebre em toda a Igreja – mesmo a nível diocesano – nos dias 13 e 14 de Março, pretende dar expressão a esta necessidade da oração. • Em segundo lugar, podemos levar ajuda, com gestos de caridade, tanto a quem vive próximo de nós como a quem está longe. • Em terceiro lugar, converter-se a um percurso de “formação do coração”. Ter um coração misericordioso não significa ter um coração débil. Quem quer ser misericordioso precisa de um coração forte, firme, fechado ao tentador mas aberto a Deus; um coração que se deixe impregnar pelo Espírito e levar pelos caminhos do amor que conduzem aos irmãos e irmãs; no fundo, um coração pobre, isto é, que conhece as suas limitações e se gasta pelo outro. E conclui esta mensagem manifestando o desejo de rezar connosco a Cristo: «Fac cor nostrum secundum cor tuum – Fazei o nosso coração semelhante ao vosso» (Súplica das Ladainhas ao Sagrado Coração de Jesus). Pois, “teremos assim um coração forte e misericordioso, vigilante e generoso, que não se deixa fechar em si mesmo nem cai na vertigem da globalização da indiferença”. Uma Santa Quaresma para todos! P. Fernando, CM

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

TODOS OS JOVENS TEM UMA VOCAÇÃO

O secretário para os seminários da Congregação do Clero (Santa Sé), D. Jorge Carlos Patrón, defende que a Igreja Católica tem de assumir um discurso centrado na “vocação” para superar a cultura da “profissão”. “Como a nossa cultura não educa a descobrir uma vocação, mas forma apenas para uma profissão, um emprego, o grande desafio é ajudar os jovens a ver a vida como vocação”, declarou o prelado mexicano, em Albufeira, onde participa nas jornadas de atualização do clero das dioceses do sul – Algarve, Beja e Évora - com o tema ‘Que pastores para a Igreja no mundo atual?’ (26 a 29 de janeiro). “Sabemos que Deus gera uma vocação em cada jovem, todos os jovens têm uma vocação, uma missão”, acrescentou, em entrevista à Agência ECCLESIA e ao jornal ‘Folha do Domingo’. Essa vocação, do ponto de vista cristão, pode passar por ser “sacerdote, consagrado, ter uma família, ser um leigo comprometido”. “Infelizmente, o nosso sistema educativo e as famílias deixaram de falar e de ver a vida como uma vocação”, assinala. O secretário para os seminários da Congregação do Clero acredita que o reforço da vocação laical levará a um aumento das vocações sacerdotais, esperando que os sacerdotes saibam “delegar” e que os cristãos assumam o desafio “missionário” lançado pelo Papa. “Alguém tem de fazer a pergunta e alguém tem de dar testemunho”, apelou. O responsável da Santa Sé recorda que os padres de hoje têm de assumir as suas responsabilidades como “um pai de muitos filhos, de todas as idades, condições e mentalidades”. “O pai não é alguém que faz tudo, mas que procura estar presente”, explicou, numa relação de “paternidade, de companhia, de carinho”. Aos membros do clero das dioceses do sul, o bispo mexicano falou sobre a “identidade sacerdotal”, a partir da experiência de ser “filhos”, “irmãos” e “pais espirituais”, refletindo o “coração de Deus”. “Na formação permanente dos sacerdotes, dizemos que se aprende a ser pai todos os dias”, refere D. Jorge Carlos Patrón, que apresenta o Papa Francisco como um exemplo do que é ser “pai para todos”.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Deus vem e chAMA

Neste Domingo III do Tempo Comum é-nos dada a graça de escutar o Evangelho de Marcos 1,14-20. Jesus já tinha entrado em cena mas ainda não tínhamos ouvido a sua voz. Ouvimo-la agora pela primeira vez. Serão, portanto, dizeres importantes e programáticos. [...] E aí está então o primeiro dizer de Jesus, articulado em duas declarações inseparáveis: «Foi cumprido o tempo e fez-se próximo o Reino de Deus» (Marcos 1,15). O acento cai sobre os dois perfeitos que abrem enfaticamente as declarações, e revelam que o Evangelho é em primeiro lugar o anúncio da inciativa divina, Deus em ação, que abre ao homem novas e belas perspectivas. O perfeito passivo (peplêrotai), que qualifica o kairós, indica bem que Jesus não se refere a qualquer segmento de tempo cronológico, mas àquele específico do cumprimento, posto expressamente sob a intervenção definitiva de Deus. Só Deus pode agir sobre o tempo cronológico, tornando-o kairós, tempo grávido de alegria e de esperança. Uma vez mais, o anúncio precede a ordem: Jesus não começa com normas e exigências, mas assinala quanto Deus já fez e está a fazer, por sua gratuita iniciativa, em nosso favor. Só depois, e como normal consequência, surgem na boca de Jesus dois imperativos: «Convertei-vos» e acreditai no Evangelho» (Marcos 1,15), que traduzem o que compete aos homens fazer. Jesus não é um moralista, mas um Evangelizador. Vem logo, para não se afastar da fonte, o tempo de chamar, de romper amarras, de «ir atrás de» (Marcos 1,16-20). Mas tudo começa ainda com o ver e o fazer primeiros e criadores de Jesus. Jesus viu Simão e André, Tiago e João, e chamou-os: «Vinde atrás de mim, e farei de vós…». Espanta aquele «imediatamente» deixaram… e foram «atrás de» Jesus. Sem reticências nem calculismos. Perante o que nos é dado ver, uma primeira pergunta nos assalta, irrompendo sobre nós como uma onda súbita: Quem pode dar uma ordem assim? Mas, ainda antes de esboçarmos a resposta, já uma segunda vaga, que tempera a primeira, cai sobre nós: Quem merece uma tal confiança? [...] São Paulo diz bem, em tradução literal: «O tempo já está a enrolar as velas» (1 Coríntios 7,29). Entenda-se: o tempo da oportunidade dada, da enchente da Palavra de Deus por nós já respondida ou ainda não, está a chegar ao fim; já está a enrolar as velas como fazem os marinheiros quando a embarcação se aproxima da terra. E ainda: «Passa, na verdade, o esquema deste mundo» (1 Coríntios 7,31). Bem entendido: «O (filme) que passa na tela é este mundo!». Se assim é, devemos aprender a saber relativizar a maneira como habitualmente nos agarramos às nossas ideias feitas e às coisas deste mundo, desde o casamento, aos bens possuídos, aos negócios. Grande lição de São Paulo em 1 Coríntios 7,29-31. A nossa vocação traduz-se na adesão ao Último, que reclama o desprendimento do penúltimo, e um amor desmedido, e um ardor desmedido, à maneira de São Paulo. O Salmo 25, que hoje fica a ecoar no nosso pobre coração, mostra-nos um fino e delicado jogo de olhares entre o orante fiel e um Deus sensibilíssimo, que olha para nós sempre com ternura paternal, refúgio permanente para os pobres e pecadores. Deixo aqui a ressoar as palavras da grande mística muçulmana do século VIII, Rabiʽa, que viveu em Bassorá, no Iraque, e que, para responder à pergunta: «Como chegaste a um grau tão elevado na vida espiritual?», respondeu: «Repetindo ininterruptamente: “Meu Deus, refugio-me em ti para me defender de tudo o que me distrai de ti, e de todo o obstáculo que se interpõe entre mim e ti”» (I detti di Rabiʽa, IV). (António Couto, Bispo de Lamego)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

PASSOS PARA CAMINHAR... "VINDE E VEREIS"

"Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo" (Bento XVI, DCE, 1).
Um cristão não é, simplesmente, alguém que tem a sua fé, a sua religião, o seu culto ou a sua moral… É, fundamentalmente, alguém a quem de uma forma ou de outra, foi apresentado Jesus Cristo e se decide a segui-l’O, entrando num processo de conhecimento, de confiança, de intimidade, de compromisso e de identificação com Ele… Um processo cuja meta é a que São Paulo nos apresenta na sua Epístola aos Coríntios: “aquele que se une ao Senhor constitui com Ele um só Espírito”. Meta que nunca se alcança, neste mundo, de modo pleno e definitivo, mas para a qual devemos tender e caminhar sempre, cultivando aquela atitude de atenção e de disponibilidade que Heli recomenda a Samuel e que ele exprime por estas palavras: “falai, Senhor, que o vosso servo escuta”. A comunhão com o Mestre que o Apóstolo anuncia nasce e vive desta atitude… Encontrar Jesus, conhecê-l’O e comunicá-l’O são os pontos fundamentais do caminho de todo o cristão. Pontos que o Evangelho (Jo 1, 35-40) tão bem destaca: 1. “Eis o Cordeiro de Deus”. Deus age por mediações: na história da nossa fé há sempre um “João Baptista” que nos aponta e apresenta Jesus… 2. “E seguiram Jesus”. Não basta tê-l’O encontrado para ser seu discípulo: é preciso seguir o trilho dos seus passos. 3. “Que procurais?” Jesus não quer ser seguido por rotina ou distracção. Por isso há que sondar, frequentemente, a qualidade e a profundidade da nossa fé e as razões do nosso seguimento… 4. “Onde moras?” Seguir Jesus é entrar num processo interminável de conhecimento, intimidade e comunhão com Ele. 5. “Vinde e vereis”. Ninguém pode ir por nós… O caminho é procurar, aprendendo a reconhecê-l’O e a escutá-l’O aonde Ele nos propõe encontro: na sua Palavra, nos Sacramentos, em cada Próximo, nos “Sinais dos Tempos”… 6. “E ficaram com Ele”. Só permanecendo n’Ele e Ele em nós, daremos passos na assimilação e no testemunho do seu pensar, do seu sentir e do seu agir. 7. “E levou-o a Jesus”. A luz não é para se esconder. O evangelizado torna-se evangelizador, elo de transmissão…, como André. E essa é, hoje, a nossa responsabilidade.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

BAPTISMO DO SENHOR: Jesus que passa pelo meio de nós

Com a festa do Baptismo do Senhor,chegamos ao umbral do chamado «Tempo Comum» do Ano Litúrgico que, ao contrário do que se possa pensar, não é um «Tempo secundário», mas fundamental na vida celebrativa da Igreja. Na verdade, ao longo deste «Tempo Comum», Domingo após Domingo, a Igreja Una e Santa, Baptizada e Confirmada, é CHAMADA a contemplar de perto, episódio após episódio, toda a vida histórica do seu Senhor, desde o Baptismo no Jordão até à Cruz e à Glória da Ressurreição. Esta apresentação só é possível porque, em cada um dos Anos Litúrgicos, é proclamado, Domingo após Domingo, praticamente em lição contínua, um Evangelho inteiro. Neste Ano B, é-nos dada a graça de ouvir o Evangelho segundo Marcos, por todos considerado o mais antigo dos Evangelhos, escrito, com certeza, durante a guerra judaica (66-70), mas antes da destruição de Jerusalém e do Templo no ano 70. Em termos formais, é um Evangelho em que se sucedem os episódios, como num filme, sendo diminuta a parte discursiva. O leitor ou ouvinte vê passar diante de si uma série de episódios em rede, sendo constantemente convidado a implicar-se no que vê, perguntando, interpretando, fazendo seu o programa das personagens ou dele se distanciando, ou simplesmente manifestando o seu espanto e encanto. O Primeiro Domingo do «Tempo Comum» coloca então diante de nós o episódio do Baptismo de Jesus no Jordão, que acontece logo a abrir o Evangelho segundo Marcos 1,7-11. O texto apresenta-se em duas vagas: Marcos 1,7-8, apontando para João Baptista, e Marcos 1,9-11, apontando para Jesus. Deixamos aqui algumas anotações para facilitar a compreensão da figura de João Baptista, apresentada na primeira vaga do texto: 1) João Baptista surge em cena, em pleno deserto, sem qualquer apresentação prévia, sem pai nem mãe, como se tivesse chovido do céu (Marcos 1,4); 2) atravessa-o uma dupla tarefa: anunciar Aquele-que-Vem, (Marcos 1,7), e, porque se trata de Alguém muito importante, advertir o povo de Israel que não basta ficar à espera dele, mas que é necessário preparar-se para a sua chega (Marcos 1,2-5.7-8); 3) esta preparação requer quatro coisas: conversão, confissão dos pecados, obter o baptismo e a remissão dos pecados (Marcos 1,4-5); 4) a missão de João Baptista reveste-se de algumas particularidades: toda a região da Judeia e todos os habitantes de Jerusalém saíam ao encontro de João Baptista (Marcos 1,5); 5) curiosamente não é João que vai ao encontro das pessoas, como tinham feito os profetas antes dele, e como fará também Jesus, que sai e percorre as cidades e aldeias ao encontro das pessoas; é este, de resto, o estilo dos Evangelizadores: ir ao encontro das pessoas, e não ficar à espera delas; 6) João parece um ponto fixo no deserto: é lá que vive, é lá que prega, e as pessoas vão lá escutá-lo; 7) é descrita a forma como anda vestido e o que come (Marcos 1,6), quer para mostrar a sua austeridade, quer para o vincular à figura de Elias (2 Reis 1,8); 8) contra o ritual habitual, não são as pessoas que tomam o banho lustral de purificação, mas é João que as baptiza na água do Jordão; 9) Este gesto é tão insólito e característico de João, que lhe vale o título de Baptista, não só no NT, mas também em Flávio Josefo. A segunda vaga do relato (Marcos 1,9-11) assinala o ponto alto do texto. João tinha anunciado a Vinda de Alguém incomparavelmente superior a ele. As expectativas estão no auge. Quando virá e de onde virá? Primeira surpresa: eis que vem Jesus, diz o narrador, de Nazaré da Galileia, terra desconhecida do interior da província e do mundo rural, nunca referida no AT. Natanael tem razão quando pergunta: «De Nazaré poderá vir alguma coisa boa?» (João 1,46). Vem do povo, e vem com o povo, no meio do povo, solidário com o povo. Na verdade, nova surpresa, não começa logo a baptizar, mas é baptizado por João no rio Jordão (Marcos 1,9). Com o povo, no meio do povo, não ao lado do povo. Jesus vem, portanto, no meio do povo pecador que se submete a um baptismo de conversão para a remissão dos pecados. Entenda-se bem que Jesus se submete ao mesmo baptismo a que o povo se submete, não porém para a remissão dos próprios pecados, mas os dos outros. Grande gesto de solidariedade connosco, prolepse já da sua vida inteira e do baptismo de sangue da Cruz (Marcos 10,38). Se este Jesus está no meio de nós, completamente solidário connosco, o texto mostra-o também completamente unido a Deus, a quem tem livre acesso. É para significar esta sua perfeita união com Deus, que os céus se abrem, cumprindo Isaías 63,19, e o Espírito desce, não «sobre ele», mas «para dentro dele» (Marcos 1,10), para permanecer nele de modo íntimo e estável. O Espírito não transforma Jesus, mas torna transparente a sua identidade. Esta nota da sua união com Deus sai logo reforçada pela voz que vem dos céus, portanto, autorizada e revelatória: «Tu és o Filho Meu, o Amado, em Ti o meu Enlevo (Marcos 1,11), deixando ver em filigrana a figura do Rei messiânico do Salmo 2,7 e do Servo de YHWH de Isaías 42,1. Mas é sobre Jesus que recai toda a atenção, pois desde que entra em cena, é ele o sujeito ou o destinatário de todas as acções: «vem de Nazaré», «é baptizado por João», «sai da água», «vê os céus abrirem-se e o Espírito descer», «a voz que vem dos céus é dirigida a Ele e fala para Ele». Jesus, por seu lado, permanece em completo silêncio. Diante dos olhos atónitos de João, e também dos nossos, fica, portanto, Jesus que, connosco e no meio de nós, como um de nós, desce ao rio Jordão para ser connosco baptizado. Para nos curar, é preciso passar pelo meio de nós. (Excertos do texto de António Couto, bispo de Lamego)

sábado, 3 de janeiro de 2015

EPIFANIA DA ALEGRIA DO EVANGELHO

Com os Magos, os grandes protagonistas da solenidade da Epifania, somos convocados, uma vez mais, a por pés ao caminho, em direcção ao Presépio, atraídos pela luz da estrela, que, lá bem do alto, sempre nos precede, e vai à nossa frente. Como eles poderemos aspirar a sentir “fortemente uma grandíssima alegria” ao vê-l’O e adorá-l’O. Percorramos, sem mais demoras, este caminho, que nos leva a Belém (casa do pão), onde Deus nos revela o seu rosto; um rosto humano de um Menino, e donde, aí chegados e encontrados, somos enviados por um caminho novo! A festa da Epifania é, realmente, a festa da revelação de Deus. Um Deus «em saída», à procura dos seus filhos, e também a festa de uma humanidade «em saída», em busca do verdadeiro rosto de Deus. É a festa do movimento. Num trânsito que segue em dois sentidos: por um lado, há o movimento de Deus, que “sai do seu mundo”, e vem ao encontro da humanidade, encarnando, em Jesus; e, por outro lado, há o movimento de tantos homens e mulheres, de proveniências diversas, que saem de si mesmos em direcção a Deus. Na base deste duplo movimento de saída, há um mesmo motor de busca: atracção recíproca. «Por pura graça, Deus atrai-nos, para nos unir a Si» (EG. 112). Assim foi com os Magos, que saíram das suas seguranças, porque uma Estrela os atraía, uma luz os precedia e ia à sua frente. A Igreja inteira está dentro deste movimento de Deus para com o mundo. A Igreja, como a estrela, não tem luz própria; só pode reflectir a luz do Sol – Jesus, o Deus feito Menino. Daí que, da solenidade da Epifania, se forme a convicção de que a Igreja só pode ser missionária, como nos diz o Papa Francisco, «uma Igreja em saída» (E.G. 24) e de portas abertas (E.G. 46). Uma Igreja que parte de Cristo e sai, por caminhos novos, ao encontro dos homens, sem medo de ficar “acidentada, suja ou enlameada” (E.G. 49). É preciso «sair» e dizer àqueles que se sentem distantes de Deus e da Igreja, àqueles que têm medo e são indiferentes: “o Senhor chama-te também a ti, chama-te para fazeres parte do seu povo e fá-lo com grande respeito e amor” (E.G. 113) por ti. Tal como os Magos, sejamos discípulos-missionários, “ministros do evangelho, cuja vida irradie fervor” já que fomos nós “quem primeiro recebeu, em si, a alegria de Cristo” (EG 10; E.N:80). E sejamos, para os outros, pequenas estrelas, que reflectem a sua luz, e assim atraem os homens para Deus.

sábado, 20 de dezembro de 2014

JÁ NÃO ESCRAVOS, MAS IRMÃOS - Uma Mensagem de PAZ

Para o início de um novo ano, uma vez mais, o Papa dirige a sua MENSAGEM PARA A JORNADA MUNDIAL DA PAZ, a todas as pessoas em particular, «povos do mundo, aos chefes de Estado e de Governo e aos responsáveis das várias religiões» os seus votos de paz e a oração «a fim de que cessem as guerras e os conflitos e os inúmeros sofrimentos provocados quer pela mão do homem quer velhas e novas epidemias e calamidades naturais». O Papa recorda o princípio de que «o anseio duma vida plena (...) contém uma aspiração irreprimível de fraternidade, impelindo à comunhão com os outros, em quem não encontramos inimigos ou concorrentes, mas irmãos que devemos acolher e abraçar». Sendo o homem um ser relacional é fundamental para o seu desenvolvimento que sejam reconhecidas e respeitadas a sua dignidade, liberdade e autonomia. «O flagelo generalizado da exploração do homem pelo homem fere gravemente a vida de comunhão e a vocação a tecer relações inter-pessoais marcadas pelo respeito, a justiça e a caridade». Inspirando-se na Carta de São Paulo a Filémon (Flm 15-16), Francisco, Papa, recorda-nos que a conversão a Cristo, pelo Baptismo, «constitui um novo nascimento que regenera a fraternidade como vínculo fundante da vida familiar e alicerce da vida social». No entanto, continua o Santo Padre, «os seres humanos não se tornam cristãos, filhos do Pai e irmãos em Cristo por imposição divina, isto é, sem o exercício da liberdade pessoal». Realmente, houve períodos na história da humanidade em que a instituição da escravatura era geralmente admitida e regulamentada pelo direito. «Hoje, na sequência duma evolução positiva da consciência da humanidade, a escravatura foi formalmente abolida do mundo». Mas, ainda hoje, há milhões de pessoas que são privadas da liberdade e constrangidas a viver em condições semelhantes à escravatura: trabalhadores escravizados e desprotegidos, em termos de leis laborais, em trabalhos domésticos, agrícolas e industriais; os migrantes na clandestinidade que aceitam viver e trabalhar em condições indignas; pessoas, nomeadamente menores, obrigadas a prostituírem-se e outros objecto de tráfico e comercialização para remoção de órgãos, soldados, pedintes, correios de droga; os cativos por grupos terroristas... «Na raiz da escravatura, está uma concepção da pessoa humana que admite a possibilidade de a tratar como um objecto», declara o santo Padre. Juntamente com esta «causa ontológica», há outras causas: 1) a pobreza, o subdesenvolvimento e a exclusão; 2) a corrupção daqueles que, para enriquecer, estão dispostos a tudo, «Isto acontece quando, no centro de um sistema económico, está o deus dinheiro, e não o homem, a pessoa humana»; 3) as guerras, a violência, a criminalidade e o terrorismo. Este fenómeno de "escravatura moderna" é marcado pela impressão duma indiferença geral que é imperioso combater com o tríplice empenho de todos, nomeadamente a nível institucional: prevenção, protecção das vítimas e acção judicial contra os responsáveis, num esforço comum e global. «Os Estados deveriam vigiar por que as respectivas legislações nacionais sobre migrações, o trabalho, as adopções, a transferência das empresas e a comercialização de produtos feitos por meio da exploração do trabalho sejam efectivamente respeitadoras da dignidade da pessoa». «Torna-se necessária uma cooperação a vários níveis, que englobe as instituições nacionais e internacionais, bem como as organizações da sociedade civil e do mundo empresarial» e, a par com a responsabilidade social das empresas, aparece a «responsabilidade social do consumidor». Conclui o Papa Francisco: «Desejo convidar cada um, segundo a respectiva missão e responsabilidades particulares, a realizar gestos de fraternidade a bem de quantos são mantidos em estado de servidão. Perguntemo-nos, enquanto comunidade e indivíduo, como nos sentimos interpelados quando, na vida quotidiana, nos encontramos ou lidamos com pessoas que poderiam ser vítimas do tráfico de seres humanos ou, quando temos de comprar, se escolhemos produtos que poderiam razoavelmente resultar da exploração de outras pessoas». «Sabemos que Deus perguntará a cada um de nós: "que fizeste do teu irmão?" (Cf. Gen 4, 9-10). A globalização da indiferença requer de todos nós que nos façamos artífices duma «GLOBALIZAÇÃO DA SOLIDARIEDADE DA FRATERNIDADE para devolver, a todos os que vivem sobrecarregados, a esperança. (Papa Francisco)